terça-feira, 25 de abril de 2017

A vida e suas dores

João Vianney Cavalcanti Nuto


            Histórias atormentadas, de Ana Vilela, é livro de estreia, mas está longe de ser obra de principiante. Seus contos revelam talento e maturidade artística. Talento por conseguir criar mundos a partir da matéria vista, ouvida, vivida, sofrida. Maturidade pelo trabalho cuidadoso com a linguagem – sem o qual uma boa história, um enredo interessante, não resulta em uma narrativa literária –, bem como pela segurança na utilização de técnicas narrativas adequadas ao efeito de cada conto.
Nesses contos de ambientação predominantemente regional – isto é, afastada dos grandes centros urbanos – Ana Vilela não conta anedotas, não conta causos, não folcloriza, não idealiza o campo, nem a infância. Suas narrativas baseiam-se não em enredos intricados, nem na simples apresentação de situações, mas em vivências de aspectos dolorosos da condição humana, em personagens marcados por certa condição de marginalidade e fragilidade. O traço delicado com que tece essas vivências cria atmosferas líricas, mas trágicas, baseadas não no conflito entre personagens, mas nas relações desses personagens com a vida, o tempo, o mundo.
Um dos traços que contribuem para a beleza dolorida desses contos é a articulação entre personagem e ambiente, intimamente associados, como dois termos de uma metáfora.  Essa composição metafórica dá o tom de narrativas como “Tempo”, conto que abre a coletânea: “Tinha o cheiro doce de araticum Seu Genésio, sempre à cata de fruta em suas andanças pelo cerrado. Muita das vezes comia por ali mesmo, no meio do pasto, embaixo de alguma sombra de árvore retorcida, casas vincadas, folhas ásperas. Anos de vida tinham-se ido por aqueles campos às vezes esperança, às vezes desespero. Chuva e seca”. O mesmo acontece em “O canto da seriema”: “O velho casarão escancara-se sempre que as pernas longas e pretas de Monique pedem passagem, porque, se não os corações dos internos, ao menos todas as portas do antigo asilo são destituídas de preconceito”.
O conto “A velha casa” é um dos melhores do livro, pela maneira inteligente e sensível de compor a ambientação, apresentando somente os detalhes que sintetizam o um lugar, uma pequena cidade, mas sempre em relação com a vida passada, as mudanças de condição e o momento sofrido do personagem em sua relação com o meio onde vive. Neste conto, como em outros do livro, não há descrições supérfluas nem caracterizações estáticas: tudo converge para criar o efeito de vivência do protagonista. Esse rigoroso senso de síntese e de sugestão quase sempre dispensa a referência a lugares específicos. E, quando acontece, a referência tende a ter dimensão alegórica, como é o caso de Goiás, como nome de personagem, e outros nomes próprios do conto: o importa não é a coincidência com nomes de lugares que conhecemos, mas as conotações sugeridas na narrativa. Há mesmo contos que prescindem quase totalmente de ambientação, sendo conduzidos somente por diálogos muito bem construídos: “A primeira vez” e “O beco dos ratos”.

Imagem divulgação: Ana Vilela

Entre a composição dramática por meio de diálogos que prescindem a exposição de um narrador e a narrativa de primeira pessoa, Ana Vilela consegue matizar os efeitos de cada conto, por meio de hábil utilização do foco narrativo. “O santo”, único conto do livro narrado em primeira pessoa, é também um dos melhores, pela maneira como apresenta os sentimentos da criança revividos pelo narrador adulto, efeito ampliado pelo uso do tempo presente, que dramatiza os acontecimentos recordados: “Sou vergonha. Duas vezes. De minha mãe e de ter vergonha”. No já citado “A velha casa”, a autora alterna duas sequências de tempo, conjugando os acontecimentos imediatos com a trajetória de vida do personagem. Em outros contos, como “Cavalo baio” e “O grito”, o discurso indireto livre do narrador expõe as repercussões internas, no personagem, dos acontecimentos apresentados nos diálogos.
O último conto de Histórias atormentadas, “Todas as vidas de um garoto sob os escombros”, é uma fábula que alegoriza todo o espírito do livro: melancólico, mas compassivo: “Estavam tristes, mas felizes. Éolo estava feliz, mas triste. Precisava reaprender tudo o que achava que sabia sobre os seres humanos, todas as suas crenças e verdades”. Assim são as Histórias atormentadas: um olhar lúcido – nem cruel, nem idealizador – sobre as dores de vidas simples; um olhar atento aos pequenos detalhes, mas sintético – e avesso a espetacularização.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Autoria e encenação da subjetividade em "Lorde"

Sylvia Cristina Toledo Gouveia*

Imagem de Phillippe Lejeune para divulgação

Philippe Lejeune, em "O pacto autobiográfico", sustenta que os discursos ficcionais – inclusive aqueles que implicam uma escrita de si – não se distinguem dos discursos autobiográficos pelo grau de sinceridade, mas sim por um pacto prévio estabelecido entre o autor e o leitor: o pacto autobiográfico. Partindo do pressuposto de que é no nome próprio que pessoa e discurso articulam-se, Lejeune aduz que a autobiografia exige uma identidade entre o autor (aquele cujo nome encontra-se estampado na capa do livro), o narrador e o personagem. Conclui-se, a partir desse preceito, que as condições para se distinguir o pacto autobiográfico do pacto romanesco encontram-se na coincidência onomástica, que legitima a confiança do leitor e responsabiliza o autor por aquilo que emerge no texto. Cabe questionar, contudo, para onde é deslocado o discurso quando esse contrato entre o autor e o leitor tem a sua estabilidade abalada pela tensão entre a autobiografia e a ficção, conduzindo o leitor a um terreno de constante hesitação.
O romance Lorde, de João Gilberto Noll, situa-se, justamente, nesse espaço fronteiriço entre o ficcional e o autobiográfico. O personagem protagonista é um escritor de Porto Alegre que recebe uma proposta de um inglês interessado em sua obra para passar uma temporada em Londres, como escritor residente. Essa mesma experiência foi vivenciada por Noll durante os quatro meses em que o romance Lorde fora concebido, quando o autor permaneceu em Londres com uma bolsa de escrita do King’s College.
Os indícios biográficos e a afirmação de que a obra – que não se resume a um retrato da realidade – só existe em decorrência da experiência vivenciada pelo autor, conforme ele mesmo observou, sugerem tratar-se não de um romance sobre o autor, mas de um romance escrito a partir de um autor, sujeito físico, que, embora não seja o fim último do texto, deixa marcas de sua inscrição enquanto sujeito no decurso narrativo. No caso específico de Lorde, a inscrição do “eu” traduz-se numa encenação ficcional que se passa em um palco aberto à constante ressignificação, afinal o protagonista é um escritor de ficção no exercício íntimo de seu ofício.

Este texto na íntegra foi publicado no livro "Personas Autorais" (2016), 
deste grupo de pesquisa.

O personagem de Lorde é um ser errante, que perambula pela cidade de Londres numa atmosfera de deterioração da memória e de confusão da consciência, sugerindo com frequência situações absurdas. O espelho é o objeto que no ambiente do romance permanece como uma grande metáfora da consciência/inconsciência de si, que dá início ao processo de dissolução da identidade do narrador personagem.
A narrativa parece confirmar-se como um laboratório da identidade do autor, sujeito físico, que encontra no espaço da ficção, por meio de um narrador personagem que é, também, escritor, um território privilegiado para a experimentação. O espaço de tensão entre o autobiográfico e o ficcional instaura-se a partir do momento em que, se por um lado o leitor é colocado diante da presença de referências à vida do autor enquanto sujeito, de modo a sugerir uma autobiografia real, por outro a narrativa é permeada de procedimentos retórico-discursivos que inviabilizam a correlação entre o narrado e o supostamente vivido: o leitor é constantemente apresentado ao insólito. Esse espaço de tensão torna problemático o enquadramento de Lorde na instância da autobiografia e também da ficção. A autobiografia é negada pelo próprio autor e refutada pela ausência do pacto autobiográfico e da sua correspondente coincidência onomástica. A ficção, por sua vez, é assombrada constantemente pelas referências biográficas, ocasionando uma espécie de pacto fantasmagórico pela convivência conflituosa do real (autobiográfico) com o insólito (nitidamente ficcional). Assim, a narrativa desestabiliza os parâmetros elementares da leitura ao flexibilizar as balizas que definem os pactos autobiográfico e romanesco. Parece-nos, pois, ser esta uma característica das escritas de si, sobretudo nas narrativas em que um escritor (ficcional) figura como personagem protagonista, como no caso de Lorde.
A subjetividade inserida no espaço narrativo não corresponde à do autor enquanto sujeito, mas registra na escrita uma presença que advém dos indícios biográficos por ele deixados, especialmente, no caso da literatura contemporânea, no espaço da mídia, por meio, por exemplo, de entrevistas nas quais o autor comenta a própria obra. Desse modo, a encenação ficcional da subjetividade não revela um alguém que é representado no texto, mas que permanece presente no texto e emerge de um locus não textual, oriundo do conhecimento que o leitor possui sobre as suas referências biográficas. O texto passa a ser, assim, o abismo sobre o qual o autor se lança, sem precisar, todavia, assumir a responsabilidade pela realidade que emerge da voz do narrador personagem, uma vez que se trata de uma realidade ficcional, por mais que esteja permeada por referências que remetem à vida do autor enquanto sujeito, previamente conhecidas pelo leitor.

Romance "Lorde", de João Gilberto Noll.

O tornar-se outro em relação a si, sintomaticamente representado em Lorde por meio da relação do narrador-personagem com o espelho, aponta para o olhar para si pelos olhos do outro e nos conduz ao posicionamento axiológico assumido pelo autor-sujeito em relação à própria vida, com reflexos que se manifestam no acabamento estético do narrador-personagem. A autocontemplação no espelho, que adquire contornos metafóricos em Lorde, é utilizada por Bakhtin em sua reflexão acerca do excedente de visão e de conhecimento utilizado pelo autor para a consumação do personagem.
O ambiente romanesco de Lorde – território privilegiado para a inscrição de um gesto literário que é revelado no exercício autoexpositivo do escritor personagem – emerge da apropriação da autobiografia pela ficção, aliada ao processo de fragmentação do “eu” em sua encenação ficcional. O autor, João Gilberto Noll, enquanto sujeito, retorna ao texto e o transforma num ângulo de refração para a dissipação da sua subjetividade, sem assumir, por outro lado, a responsabilidade inerente ao registro da assinatura do escritor no ambiente autobiográfico. Observe-se, nesse sentido, que em Lorde tanto o autor quanto o narrador-personagem abrem mão de seu comprometimento com a verdade, que se perde nas próprias contradições e disparates da narrativa. O compromisso com a verdade em relação ao autor é afastado pelo pacto ficcional, em que pesem as referências biográficas. Já o compromisso do narrador personagem com a verdade é refutado pelo próprio protagonista escritor, que se reconhece como indivíduo desprovido de memória e de coerência em relação aos próprios pensamentos e experiências, uma vez que o seu universo, conforme ele mesmo reconhece e constantemente reafirma, é um universo de delírio. Um universo de delírio do personagem. Um universo de delírio do autor.

*Doutoranda em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB)
Membro do Grupo de Estudos de Literatura e Cultura da UnB

sábado, 8 de abril de 2017

Entre acenos e afetos*
                                                               Roberto Medina

Créditos: Adriana Franciosi, Agência RBS


             João Gilberto Noll se destaca no panorama da literatura brasileira pela força contida na arte da palavra. Sujeito que se desafiava a cada nova empreitada na escritura, tanto para jovens como para adultos. Os romances de Noll iam e vinham, pulando as fronteiras de sua querida Porto Alegre. Se um protagonista estivesse no exterior, de alguma forma, o imaginário gaúcho permearia a tessitura de palavras.
         Além disso, romances e contos pululam o imaginário dos leitores brasileiros e estrangeiros, algumas narrativas nascendo na infância, e outras na própria empresa do viver. Ainda lembro de um encontro com Noll, expressava a mecânica das artimanhas que se revelam no ato de composição do romance, ele dizia com a calma das vozes dos que pensam: “Sim, exige muito. É esforço de reescritura. Mas é preciso deixar fluir a mão, o canto das palavras virá junto”.
            Noll nunca fugia de uma boa conversa. Certa vez, confessou que sentia falta de trabalho e de esmero em algumas escrituras contemporâneas. “E como tu foges disso, Noll?”, perguntei. Ele: “Releio constantemente Camões e Padre Viera. Essa é minha faxina linguística.” A partir de sua literatura, é possível pensar a arquitextura de um bom conto e de um bom romance. Claro, todos escritores têm perguntas próprias e idiossincracias, sua forma de compor o texto do corpo e o corpo do texto. Para ele, os afetos migram do masculino ao feminino, sem pudores forçados por conta de um leitor virtual a ser encontrado na malha textual. Gosto de como ele embrenha o homoerotismo no tecido das páginas, há uma música que soa no diapasão do humano.
            A obra de Noll é dínamo e bálsamo para nossos tempos de intolerância. No entanto, as vozes que estão nas narrativas já ocuparam recitais, palcos teatrais, histórias em quadrinhos e tela dos cinemas, por exemplo. É indiscutível o número de dissertações e teses que investigaram a produção desse escritor. Na UnB, citamos a atual pesquisa de doutoramento de Elizabeth Barros, orientada pelo Dr. João Vianney Nuto Cavalcanti, do Póslit. Isso aponta para o boom escritural de uma geração da qual Noll fez parte; entre ele, estavam Caio Fernando Abreu, Moacyr Scliar e Sérgio Faraco. Como lembra a escritora Marcia Denser: “um grande estilista, inventor de linguagem. Noll trabalhava com o laboratório da língua.”
Noll, em potência e direção múltipla, deixa o signo escritural que nos faz retornar ao texto à procura da marca pessoal. Ainda posso ouvir sua voz baixa ao ler um fragmento, algo que se tornava canção vinda da mente do escritor. Não precisamos de todo esse aparato para os enunciados literários dele, apenas podemos deixar o gozo barthesiano nos atingir, aqui, bem no centro do ser. As personagens de Noll têm uma segunda camada, têm uma busca existencial. Talvez, fosse o jeito solitário que o autor imprimia à sua vida e à das personagens de papel. Alguns livros de Noll são paradigmáticos, como: O Cego e a Dançarina, A Fúria do Corpo, Berkeley em Bellagio, Hotel Atlântico, Anjo das Ondas, afora outros. Os meus romances de afeto: Lorde e Acenos e Afagos.
          Como ensina o dito árabe: “Quando um homem das letras morre, incendeia-se um biblioteca”. No caso do amigo e escritor João Gilberto Noll, explodem as palavras, para depois se aninhar e renascer em no nosso íntimo, despertando a fúria dos nossos corpos leitores e atiçando um animal inquieto na esquina das páginas.

*Este texto foi originalmente publicado no jornal Correio Braziliense.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Nosso grupo de pesquisa tem a alegria de anunciar o lançamento do livro de poesia de um dos seus membros, Francisco Alves, Professor de Literatura Brasileira na UFRR e no momento doutorando do Poslit/UnB, sob orientação do Prof. Dr. João Vianney.

 "Poemas Urbanóides e Ruídos noturnos" foi lançado em Roraima e em breve será lançado também em Brasília. O prefácio desta linda obra foi feito por outra participante do LitCultUnB, Julliany Mucury, também doutoranda do Poslit.




Convidamos a todos para adentrar o oceano poético de Francisco, pelos olhos de Julliany:

"Francisco Alves vem agridoce em seus ruídos poéticos. Neste registro de uma vida inventada, ou não, pelo poeta, há o avanço no tempo da experimentação do outro. A poesia de Chico é um tratado de alteridade vivida na carne, nos resquícios de uma troca intensa de fluídos e frustrações. Versos livres, ensaios de haikai, confissões do íntimo de um eu-lírico humano, demasiadamente humanizado pela crueza das dores. Exercício contínuo de busca, em estado constante de pulsão de vida e morte, eis que o(s) sexo(s) pulsa(m). O que vemos aqui é a transmutação poética do sujeito líquido de que nos fala Bauman, poesia contemporânea e atemporal, um eu que arde em desejo e fúria. Neste frenesi, vemos o rebaixamento bakhtiniano que vai ao encontro da estética dos beatnicks, as palavras não se desviam de seu intento, todo o baixo corporal vem representado naquilo que tem de pueril e grotesco.
A poesia de Francisco cheira a sexo e é no amanhecer dos amantes ou no pós-coito que encontramos o sujeito fragmentado e estraçalhado pela truculência desta troca. Perder-se na troca. Chico é troca. Quando expõe-se num conjunto de poemas de métricas e rimas variadas, expõe também o drama de ser tão homem, ser tão carnal, na dicotomia entre o dentro e o fora, no choque entre razão e sentimentalidades. Objetos e natureza perfazem o cenário dessa viagem dentro do eu, amplo e restrito, vemos recortes de estadas. Escatológico e livre, o sujeito ousa no cruzamento do gesto, ousa no outro, ousa no grito de uma solidão extrema.
Em seus poemas Francisco arde. Esta febre vai se revelando ao leitor em cada poema, começando no íntimo do nós, que migra para o eu, na aridez dos espaços ocos, de um espaço interior maculado, machucado, sangue e suor, dor e resignação. Essa angústia existencial vem desde o berço: “porque antes de nascer já temos dívida / e não adianta viver entre comida / chupeta ou calção”, o sujeito que aqui dialoga é este mesmo que evoca a poesia como redenção, mas sabe que é intento de Sísifo, tarefa contínua e árdua que não cessa. Que nada responde. Que chateia. A primeira parte do livro assim termina, entramos em “Poemas do esquecimento vivo”, deixando “Ruídos noturnos” na sua dormência, pois ainda ressoa.
Tatiana Capaverde já traz a nota do que este livro-resgate significa, no impossível esquecimento vivo o poeta adentra a seara da travessia, o poeta e o eu-lírico estão num lugar: o Norte. Neste novo pedaço de Chico os poemas tem nome, tem batismo, mais centrados e concentrados que estão no relato. A transição entre dois tempos são vistos aqui. Temos sujeitos, transes, trânsitos e estâncias de viver diversas e complementares em si. A poesia do todo assim se define: “Sufocantes palavras encontro as vezes / estou sempre às margens de teus lábios / o braço também é torto, o homem meio, / partitura de sons línguas e trezes!”, neste trecho do poema Meio Homem. O livro é o entremeio, o sujeito que abre as entranhas e colhe do mundo toda a dor da coragem do salto, com direito a um “Anexo rebelde”, em que mais poemas, de mais um outro sujeito, conversam conosco. Francisco salta, cai e fratura os ossos das canelas, mas continua se arrastando, sempre em frente, com a boca repleta da poeira dos descaminhos. Evoé, poeta."


Nos despedimos hoje com um poema do livro:

“É tanta gente enfiando
 machado no cu
e falando de amor
ao mesmo tempo!
Ficar mundo é ser mais gente
calado nunca come cru,
Devore a torre, a igreja, o corpo e a flor.
Casamento?
Silêncio, por favor,
que tento apenas
 enfiar o anel nos dentes.
Eita canseira
destes ovos progressistas,
ruralistas, comodistas
tradicionalistas,
de todos
até destes com tiques gregos
mundo desmundo
tempo
sem fundo
união é tudo
menos amor e desapego!
É tanta gente...
(repetidamente
em todos os lugares
até nas covas)
enfiando machados no cu
e falando de amor
ao mesmo tempo!”

sexta-feira, 24 de março de 2017

O humor na literatura

 Hiolene Champloni (PG/UnB)

Pode-se considerar o humor na literatura como outra forma de interpretar o mundo com seu olhar zombeteiro e despudorado sobre a sociedade. Nem sempre explícito, o humor está presente em obras literárias possuindo a capacidade de deixar sem argumentos a representação do que é odioso e de tornar tolerável o que parece insuportável. A literatura como arte de representação de emoções e de comportamentos, se constrói sob o risco do sério se tornar cômico e vice-versa ou, simplesmente, desvia a nossa atenção fazendo-nos rir copiosamente.

Grupo Zani - imagem de divulgação

Como observa Bakhtin, “o riso destrói o medo e o respeito pelo mundo transformando-o em objeto de contato familiar”. De acordo com o filósofo russo, a literatura cômica medieval desenvolveu-se por mais de um milênio considerando-se que a sua origem remonta à Antiguidade cristã.  Durante esse tempo, essa literatura passou por significativas modificações propiciando o aparecimento de diferentes gêneros e variações estilísticas. Apesar disso, a literatura cômica permaneceu como a representação da concepção popular e carnavalesca do mundo.


quinta-feira, 16 de março de 2017


LITCULT RECEBE LUCIANO PONZIO

O Grupo de Estudos de Literatura e Cultura (LitCultUnB) traz para Brasília o Professor Luciano Ponzio, para o lançamento da primeira edição do seu livro "Visões do Texto", na segunda quinzena de maio. Aguardem! Mais informações em breve.


domingo, 28 de agosto de 2016

OS GRÃOS GERMINAM...

Durante três dias, nosso III Seminário de Literatura e Cultura nos regalou com saborosas horas, ricas em reflexão, análise, debate e convivência. Apresentamos nossas pesquisas, aprendemos, trocamos ideias, tivemos novas ideias, vislumbramos outras possibilidades de interpretação e crítica. As professoras convidadas – Diana Klinger, Luciana Montemezzo e Sheila Grillo – enriqueceram-nos com o conhecimento que compartilharam. Os momentos não acadêmicos, não oficiais, do seminário foram vividos em clima de alegria carnavalesca. 

A riqueza desses três dias só foi precedida por muitos outros dias de idealização, planejamento, discussão, colaboração harmoniosa e execução atenta. Os grãos foram plantados e regados com cuidado e carinho. E germinaram na fecundidade do seminário. O que foi vivido, a vida levou; mas outros grãos germinam...

Obrigado a todos!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Personas Autorais: Prosarias e Teoremas

O Grupo de Estudos de Literatura e Cultura tem o prazer de convidá-los para lançamento do livro Personas Autorais: Prosarias e Teoremas. O livro é o resultado dos trabalhos apresentados no II Seminário Nacional de Literatura e Cultura, realizado em 2015. 


O lançamento ocorrerá às 15h45 do dia 26 de agosto, durante o III Seminário Nacional de Literatura e Cultura - O Grão e o Fruto: Morte e Vestígios do Autor.

O evento será realizado no Auditório Verde da FACE (Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia) da UnB, nos dias 24, 25 e 26 de agosto.

Confira a programação completa.

Faça sua inscrição.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Programação: III Seminário Nacional de Literatura e Cultura

Já está disponível a programação do III Seminário Nacional de Literatura e Cultura - O Grão e o Fruto: Morte e Vestígios do Autor. Organize sua agenda e inscreva-se aqui!



Dia 24/08/2016 - Quarta-feira

Manhã
  • 8h 30min às 10h - Inscrições
  • 10h - Mesa de Abertura:
Prof. Dr. Enrique Huelva (Diretor do IL/UnB)
Prof. Dr. Rogério da Silva (Chefe do TEL/UnB)
Profa. Dra. Sylvia Cyntrão (Coordenadora do PÓSLIT/UnB)
Prof. Dr. João Vianney Cavalcanti Nuto (Coordenador do LITCULT/UnB)
  • 10h 30min - Conferência de Abertura:
"Repensando a morte do autor: breves considerações sobre uma longa história" - Profa. Dra. Diana Irene Klinger (UFF)
  • 11h 30min - Debate
  • 12h - Almoço
Tarde
  • 14h às 15h15min - Mesa I:
“Ouvindo Vozes: do autor-fantasma ao fantasma-autor” - Valéria Silveira Brisolara (Uniritter)

“O autor morreu, viva o leitor” - Vera Lúcia Pires (UCPel-RS)

“Inscrever o nome no caso: narração e memória em Relato de um certo oriente” - Fabrícia Walace (UnB)

“A autoria no Círculo de Mikhail Bakhtin: um problema teórico” - João Vianney Cavalcanti Nuto (UnB)

“V Shakespeares: autorias” - Wiliam Alves Biserra (UnB)
  • 15h 15min às 15h 30min - Debate
  • 15h 30 min às 16h - Intervalo - Lanche
  • 16h às 17h 15min - Mesa II:
“O escritor e o duplo: a representação do autor em Guerra sem testemunhas” - Amanda Lucy Dos Santos Costa (UnB)

“A mulher-palavra em Avalovara: percurso e autoria de si.” - Luciana Barreto (UnB)

“O risco e o bordado: a autoria imaginária em Autran Dourado” - Allan Michell Barbosa (SEEDF/UnB)

“O mais potente dos afetos: autobiografia de São Francisco de Assis” - João Carlos Félix de Lima (ISCP/UnB)

“A recordação estetizada pelo autor autobiográfico-confessional: narrações de uma vida libertina em Confissões de Santo Agostinho” - Fernando Dusi Rocha (UnB)
  • 17h 15min à 17h 30min – Debate

Dia 25/08/2016 - Quinta-feira

Manhã

  • 9h às 10h – Mesa III
“Fragmentos do autor na movência da voz” - Sylvia Cristina Toledo Gouveia (UnB)

“Renato Russo e sua construção como autor-criador: um engenho pautado na alteridade” - Julliany Mucury (UnB)

“Dialogismo e questões de autoria na obra Bom conselho do projeto A imagem do som de Chico Buarque” - Kelly Fabíola Viana dos Santos (SEEDF/UnB)“Pra ver a banda passar: presença e ausência em Meu irmão alemão, de Chico Buarque de Holanda” - Ana Maria Agra (UnB)
  • 10h às 10h 15min – Debate
  • 10h 15min às 10h 45min – Intervalo – Café
  • 10h 45min às 11h 45min – mesa IV 
Nadja: entre a autobiografia e a ficção (ou por uma autobiografia surrealista)” - Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani (IFB/UnB)

“ Desdobramentos construtivos de/em Naum Alves de Souza” - André Luís Gomes (UnB)Ethos e Autoria na dramaturgia de Hilda Hilst” - Francisco Alves (UFRR//UnB)“Quem poderá ser a primeira pessoa dessa história: espelhamento e autoria em Berço de corvos, de Zaragoça e Plà” - Maria Aline de Andrade Correia (SEEDF/UnB)

“Discurso e linguagem em Mulher no espelho, de Helena Parente Cunha” - Hiolene de Jesus Moraes Oliveira Champloni (UnB)
  • 11:45min às 12h – Debate
  • 12h – Almoço
TARDE
  • 14h às 15h 15min – Mesa V 
“Conversando com Jorge Amado: história de um relato de vida” - Denise Dias (IFG/UnB)

“Autor não citado: ausência da autoria de Fausto Pena sobre os escritos de Pedro Arcanjo em Tenda dos Milagres, de Jorge Amado” - Douglas Rodrigues de Sousa (UnB)

“A angústia do autor: reflexões a partir dos vestígios do autor em Angústia, de Graciliano, Ramos” - Alan Brasileiro de Souza (UnB)

“A estética ausente: autoria e ficcionalização em Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato” - Elizabete Barros de Sousa Lima (UnB)
  • 15h 15min às 15h 30min – Debate
  • 15:30 – Intervalo – Lanche
  • 16h às 17h 15min – Mesa VI 
“O autor não se acaba nunca: reflexões acerca da autoria na obra París no se acaba nunca, de Enrique Vila-Matas” - Maxçuny Alves Neves da Silva (SEEDF/UnB)

“Da angústia da escritura ao prazer da leitura” - Isabel Cristina Corgosinho (SEEDF/UnB)

“Instâncias criativas e autorais em Romance da Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-volta, de Ariano Suassuna, segundo Meditações do Quixote, de José Ortega Y Gasset” - Rachel Lourenço (UnB)

“O tigre argentino entre bambus de autoria e de autor” - Roberto Medina (UnB)
  • 17h 15min às 17h 30min – Debate
  • 17h 30min às 19h – Intervalo - Lanche
NOITE
  • 19h às 20h - Conferência:
“Autoria, crítica e tradução no teatro de Garcia Lorca” – Prof. Dra. Luciana Ferrari Montemezzo (UFSM)
  • 20h às 20h 30min – Debate


Dia 26/08/2016 - Sexta-feira


MANHÃ
  • 9h às 10h – Mesa VII 
“Risco no concreto: o autor, em Cidade Livre, de João Almino” - Otávio Augusto Buzar Perroni (UnB)

“A memória como elemento significativo na construção estético-literária em O Fantasma, de Luis Buñuel” - Lucélia Almeida (UnB)

A Carta ao Pai, O Veredicto e o Mundo Urbano: indícios ficcionais e biográficos da escrita epistolar, novelística e diarística de Franz Kafka” - Samella Michelly Russo (UnB)

“Quem é Holden Caulfield?” - Débora Damasceno (UnB)

“As leis de um autor: entre a poesia e a história” - Pedro Couto (UnB)
  • 10h às 10h 15min – Debate
  • 10h 15min às 10h 45min – Intervalo – Cafezinho
  • 10h 45min às 11h 45min – Mesa VIII
“Autoria e ética: reflexões sobre a literatura na pós-modernidade” - Janara Laíza de Almeida Soares (UnB)

“ A periferia em foco: considerações em torno da autoria e da escrita autobiográfica em Favela toma conta, de Alessandro Buzo” - Maíra Silva da Fonseca Ramos (UnB)

“Quem fala? O papel do autor na arquitetura do texto em As meninas da esquina e Sonhos roubados” - Mônica Horta Azeredo & Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva

“ A escrita como Pharmakon em Maura Lopes Cançado: Impasse diante da mortificação do eu” - Rosângela Lopes da Silva (UnB)

“Ressonâncias poéticas: Manoel de Barros e Ondjaki” - Anna Isabel Freire (UnB) & Roberto Medina (UnB)
  • 11h 45min às 12h - Debate 
  • 12h – Almoço 
TARDE
  • 14h às 15h – Conferência
“Autoria e tradução: os textos do Círculo de Bakhtin” – Profa. Dra. Sheila Vieira de Camargo Grillo Sheila (USP/CNPq)
  • 15h às 15h 30min – Debate 
  • 15h 30min às 15h 45min – Intervalo – Cafezinho 
  • 15h 45min a 17h 15min – Lançamento do livro PERSONAS AUTORAIS
  • 17h 15min às 19h – Coquetel de encerramento

terça-feira, 26 de julho de 2016

LitCult promove III Seminário Nacional de Literatura e Cultura



Nos dias 24, 25 e 26 de agosto, o LitCult promoverá, na Universidade de Brasília, o III Seminário Nacional de Literatura e Cultura - O Grão e o Fruto: Morte e Vestígios do Autor. O Seminário pretende responder à necessidade de se discutirem as noções de autor e de autoria na modernidade, problematizando questões pertinentes à ficção e à realidade. Além disto, o seminário realiza-se em um ano particularmente significativo, em que se comemoram os 400 anos de legado de Shakespeare, escritor multivocal; e de Cervantes, cuja obra prima, D. Quixote, é considerada o primeiro romance moderno, entre outros motivos, pela ousada reflexão metalinguística sobre a autoria; além de memorar os 80 anos do assassinato Federico García Lorca, poeta, dramaturgo, músico, artista visual e também autor de reflexões sobre autoria. Lembramos também os 30 anos sem Jorge Luis Borges.

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