sexta-feira, 24 de março de 2017

O humor na literatura

 Hiolene Champloni (PG/UnB)

Pode-se considerar o humor na literatura como outra forma de interpretar o mundo com seu olhar zombeteiro e despudorado sobre a sociedade. Nem sempre explícito, o humor está presente em obras literárias possuindo a capacidade de deixar sem argumentos a representação do que é odioso e de tornar tolerável o que parece insuportável. A literatura como arte de representação de emoções e de comportamentos, se constrói sob o risco do sério se tornar cômico e vice-versa ou, simplesmente, desvia a nossa atenção fazendo-nos rir copiosamente.

Grupo Zani - imagem de divulgação

Como observa Bakhtin, “o riso destrói o medo e o respeito pelo mundo transformando-o em objeto de contato familiar”. De acordo com o filósofo russo, a literatura cômica medieval desenvolveu-se por mais de um milênio considerando-se que a sua origem remonta à Antiguidade cristã.  Durante esse tempo, essa literatura passou por significativas modificações propiciando o aparecimento de diferentes gêneros e variações estilísticas. Apesar disso, a literatura cômica permaneceu como a representação da concepção popular e carnavalesca do mundo.


quinta-feira, 16 de março de 2017


LITCULT RECEBE LUCIANO PONZIO

O Grupo de Estudos de Literatura e Cultura (LitCultUnB) traz para Brasília o Professor Luciano Ponzio, para o lançamento da primeira edição do seu livro "Visões do Texto", na segunda quinzena de maio. Aguardem! Mais informações em breve.


domingo, 28 de agosto de 2016

OS GRÃOS GERMINAM...

Durante três dias, nosso III Seminário de Literatura e Cultura nos regalou com saborosas horas, ricas em reflexão, análise, debate e convivência. Apresentamos nossas pesquisas, aprendemos, trocamos ideias, tivemos novas ideias, vislumbramos outras possibilidades de interpretação e crítica. As professoras convidadas – Diana Klinger, Luciana Montemezzo e Sheila Grillo – enriqueceram-nos com o conhecimento que compartilharam. Os momentos não acadêmicos, não oficiais, do seminário foram vividos em clima de alegria carnavalesca. 

A riqueza desses três dias só foi precedida por muitos outros dias de idealização, planejamento, discussão, colaboração harmoniosa e execução atenta. Os grãos foram plantados e regados com cuidado e carinho. E germinaram na fecundidade do seminário. O que foi vivido, a vida levou; mas outros grãos germinam...

Obrigado a todos!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Personas Autorais: Prosarias e Teoremas

O Grupo de Estudos de Literatura e Cultura tem o prazer de convidá-los para lançamento do livro Personas Autorais: Prosarias e Teoremas. O livro é o resultado dos trabalhos apresentados no II Seminário Nacional de Literatura e Cultura, realizado em 2015. 


O lançamento ocorrerá às 15h45 do dia 26 de agosto, durante o III Seminário Nacional de Literatura e Cultura - O Grão e o Fruto: Morte e Vestígios do Autor.

O evento será realizado no Auditório Verde da FACE (Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia) da UnB, nos dias 24, 25 e 26 de agosto.

Confira a programação completa.

Faça sua inscrição.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Programação: III Seminário Nacional de Literatura e Cultura

Já está disponível a programação do III Seminário Nacional de Literatura e Cultura - O Grão e o Fruto: Morte e Vestígios do Autor. Organize sua agenda e inscreva-se aqui!



Dia 24/08/2016 - Quarta-feira

Manhã
  • 8h 30min às 10h - Inscrições
  • 10h - Mesa de Abertura:
Prof. Dr. Enrique Huelva (Diretor do IL/UnB)
Prof. Dr. Rogério da Silva (Chefe do TEL/UnB)
Profa. Dra. Sylvia Cyntrão (Coordenadora do PÓSLIT/UnB)
Prof. Dr. João Vianney Cavalcanti Nuto (Coordenador do LITCULT/UnB)
  • 10h 30min - Conferência de Abertura:
"Repensando a morte do autor: breves considerações sobre uma longa história" - Profa. Dra. Diana Irene Klinger (UFF)
  • 11h 30min - Debate
  • 12h - Almoço
Tarde
  • 14h às 15h15min - Mesa I:
“Ouvindo Vozes: do autor-fantasma ao fantasma-autor” - Valéria Silveira Brisolara (Uniritter)

“O autor morreu, viva o leitor” - Vera Lúcia Pires (UCPel-RS)

“Inscrever o nome no caso: narração e memória em Relato de um certo oriente” - Fabrícia Walace (UnB)

“A autoria no Círculo de Mikhail Bakhtin: um problema teórico” - João Vianney Cavalcanti Nuto (UnB)

“V Shakespeares: autorias” - Wiliam Alves Biserra (UnB)
  • 15h 15min às 15h 30min - Debate
  • 15h 30 min às 16h - Intervalo - Lanche
  • 16h às 17h 15min - Mesa II:
“O escritor e o duplo: a representação do autor em Guerra sem testemunhas” - Amanda Lucy Dos Santos Costa (UnB)

“A mulher-palavra em Avalovara: percurso e autoria de si.” - Luciana Barreto (UnB)

“O risco e o bordado: a autoria imaginária em Autran Dourado” - Allan Michell Barbosa (SEEDF/UnB)

“O mais potente dos afetos: autobiografia de São Francisco de Assis” - João Carlos Félix de Lima (ISCP/UnB)

“A recordação estetizada pelo autor autobiográfico-confessional: narrações de uma vida libertina em Confissões de Santo Agostinho” - Fernando Dusi Rocha (UnB)
  • 17h 15min à 17h 30min – Debate

Dia 25/08/2016 - Quinta-feira

Manhã

  • 9h às 10h – Mesa III
“Fragmentos do autor na movência da voz” - Sylvia Cristina Toledo Gouveia (UnB)

“Renato Russo e sua construção como autor-criador: um engenho pautado na alteridade” - Julliany Mucury (UnB)

“Dialogismo e questões de autoria na obra Bom conselho do projeto A imagem do som de Chico Buarque” - Kelly Fabíola Viana dos Santos (SEEDF/UnB)“Pra ver a banda passar: presença e ausência em Meu irmão alemão, de Chico Buarque de Holanda” - Ana Maria Agra (UnB)
  • 10h às 10h 15min – Debate
  • 10h 15min às 10h 45min – Intervalo – Café
  • 10h 45min às 11h 45min – mesa IV 
Nadja: entre a autobiografia e a ficção (ou por uma autobiografia surrealista)” - Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani (IFB/UnB)

“ Desdobramentos construtivos de/em Naum Alves de Souza” - André Luís Gomes (UnB)Ethos e Autoria na dramaturgia de Hilda Hilst” - Francisco Alves (UFRR//UnB)“Quem poderá ser a primeira pessoa dessa história: espelhamento e autoria em Berço de corvos, de Zaragoça e Plà” - Maria Aline de Andrade Correia (SEEDF/UnB)

“Discurso e linguagem em Mulher no espelho, de Helena Parente Cunha” - Hiolene de Jesus Moraes Oliveira Champloni (UnB)
  • 11:45min às 12h – Debate
  • 12h – Almoço
TARDE
  • 14h às 15h 15min – Mesa V 
“Conversando com Jorge Amado: história de um relato de vida” - Denise Dias (IFG/UnB)

“Autor não citado: ausência da autoria de Fausto Pena sobre os escritos de Pedro Arcanjo em Tenda dos Milagres, de Jorge Amado” - Douglas Rodrigues de Sousa (UnB)

“A angústia do autor: reflexões a partir dos vestígios do autor em Angústia, de Graciliano, Ramos” - Alan Brasileiro de Souza (UnB)

“A estética ausente: autoria e ficcionalização em Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato” - Elizabete Barros de Sousa Lima (UnB)
  • 15h 15min às 15h 30min – Debate
  • 15:30 – Intervalo – Lanche
  • 16h às 17h 15min – Mesa VI 
“O autor não se acaba nunca: reflexões acerca da autoria na obra París no se acaba nunca, de Enrique Vila-Matas” - Maxçuny Alves Neves da Silva (SEEDF/UnB)

“Da angústia da escritura ao prazer da leitura” - Isabel Cristina Corgosinho (SEEDF/UnB)

“Instâncias criativas e autorais em Romance da Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-volta, de Ariano Suassuna, segundo Meditações do Quixote, de José Ortega Y Gasset” - Rachel Lourenço (UnB)

“O tigre argentino entre bambus de autoria e de autor” - Roberto Medina (UnB)
  • 17h 15min às 17h 30min – Debate
  • 17h 30min às 19h – Intervalo - Lanche
NOITE
  • 19h às 20h - Conferência:
“Autoria, crítica e tradução no teatro de Garcia Lorca” – Prof. Dra. Luciana Ferrari Montemezzo (UFSM)
  • 20h às 20h 30min – Debate


Dia 26/08/2016 - Sexta-feira


MANHÃ
  • 9h às 10h – Mesa VII 
“Risco no concreto: o autor, em Cidade Livre, de João Almino” - Otávio Augusto Buzar Perroni (UnB)

“A memória como elemento significativo na construção estético-literária em O Fantasma, de Luis Buñuel” - Lucélia Almeida (UnB)

A Carta ao Pai, O Veredicto e o Mundo Urbano: indícios ficcionais e biográficos da escrita epistolar, novelística e diarística de Franz Kafka” - Samella Michelly Russo (UnB)

“Quem é Holden Caulfield?” - Débora Damasceno (UnB)

“As leis de um autor: entre a poesia e a história” - Pedro Couto (UnB)
  • 10h às 10h 15min – Debate
  • 10h 15min às 10h 45min – Intervalo – Cafezinho
  • 10h 45min às 11h 45min – Mesa VIII
“Autoria e ética: reflexões sobre a literatura na pós-modernidade” - Janara Laíza de Almeida Soares (UnB)

“ A periferia em foco: considerações em torno da autoria e da escrita autobiográfica em Favela toma conta, de Alessandro Buzo” - Maíra Silva da Fonseca Ramos (UnB)

“Quem fala? O papel do autor na arquitetura do texto em As meninas da esquina e Sonhos roubados” - Mônica Horta Azeredo & Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva

“ A escrita como Pharmakon em Maura Lopes Cançado: Impasse diante da mortificação do eu” - Rosângela Lopes da Silva (UnB)

“Ressonâncias poéticas: Manoel de Barros e Ondjaki” - Anna Isabel Freire (UnB) & Roberto Medina (UnB)
  • 11h 45min às 12h - Debate 
  • 12h – Almoço 
TARDE
  • 14h às 15h – Conferência
“Autoria e tradução: os textos do Círculo de Bakhtin” – Profa. Dra. Sheila Vieira de Camargo Grillo Sheila (USP/CNPq)
  • 15h às 15h 30min – Debate 
  • 15h 30min às 15h 45min – Intervalo – Cafezinho 
  • 15h 45min a 17h 15min – Lançamento do livro PERSONAS AUTORAIS
  • 17h 15min às 19h – Coquetel de encerramento

terça-feira, 26 de julho de 2016

LitCult promove III Seminário Nacional de Literatura e Cultura



Nos dias 24, 25 e 26 de agosto, o LitCult promoverá, na Universidade de Brasília, o III Seminário Nacional de Literatura e Cultura - O Grão e o Fruto: Morte e Vestígios do Autor. O Seminário pretende responder à necessidade de se discutirem as noções de autor e de autoria na modernidade, problematizando questões pertinentes à ficção e à realidade. Além disto, o seminário realiza-se em um ano particularmente significativo, em que se comemoram os 400 anos de legado de Shakespeare, escritor multivocal; e de Cervantes, cuja obra prima, D. Quixote, é considerada o primeiro romance moderno, entre outros motivos, pela ousada reflexão metalinguística sobre a autoria; além de memorar os 80 anos do assassinato Federico García Lorca, poeta, dramaturgo, músico, artista visual e também autor de reflexões sobre autoria. Lembramos também os 30 anos sem Jorge Luis Borges.

Inscreva-se aqui!

Confirme sua presença aqui!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

CRAIG BRANDIST NA UNB

O Grupo de Pesquisa de Literatura e Cultura recebe, no dia 21 de agosto, o Prof. Craig Brandist, que proferirá conferência intitulada “The Early Soviet Critique of Philology", que terá tradução.

O evento acontecerá no Auditório 1 do Instituto de Biologia da UnB, às 14h e 30min.

Caraig Brandist é especialista em teoria cultural e história de intelectuais russos e soviéticos, reconhecido internacionalmente por suas reflexões em torno do chamado Círculo de Bakhtin. É diretor do Bakhtin Centre e professor do Departamento de Russo e Estudos Eslavos da Universidade de Sheffield, no Reino Unido. Seu trabalho encontra-se em uma extensa publicação de livros, capítulos e vários artigos em periódicos, resultado de mais de dez anos de estudo na Universidade de São Petersburgo, na Rússia, e tamb´me na Universidade de Jyväskylä, na Finlândia.

REPENSANDO O CÍRCULO DE BAKHTIN

João Vianney Cavalcanti Nuto

            Dadas as circunstâncias complicadas de sua produção, a recepção da obra do hoje chamado Círculo de Bakhtin tem sido marcada por uma visão um tanto hagiográfica dos seus membros, principalmente daquele que é tido como o mentor do círculo. Complementa essa visão certa idealização, que, ao descobrir a riqueza da obra do círculo, não tinha o devido acesso ao contexto que permitiria avaliar corretamente as influências que poderiam contribuir para relativizar a originalidade dessas reflexões.
            Repensando o Círculo de Bakhtin, de Craig Brandist, é uma coletânea de ensaios que resultam de cuidadosas pesquisas nos arquivos da Rússia. Os ensaios exploram as tradições filosóficas que os influenciaram, algumas já devidamente observadas por outros estudiosos; outras, nem tanto. Cassirer e Burckhardt são apontados como influências importantes na cosmovisão carnavalesca do Renascimento, tal como concebida por Bakhtin. Analisando as fontes para o desenvolvimento da concepção de dialogismo por Voloshinov e Bakhtin, Brandist observa a influência de Franz Brentano e de Karl Bühler. A atenção de Brandist para o contexto soviético permite que ele perceba convergências – sem ignorar as diferenças – entre o pensamento de Bakhtin e o de Vygotsky; convergências que não derivam somente de um ligeiro contato direto, mas de influências comuns no ambiente intelectual soviético da época.
            Craig Brandist não é o primeiro estudioso a ter acesso aos arquivos de Bakhtin e de outros membros do círculo. No entanto a atenção especial que devota ao papel das instituições no desenvolvimento não só da obra do círculo, mas das ciências da linguagem de maneira geral, na União Soviética da época, permite interpretações que extrapolam a simples idealização do talento individual de Bakhtin e de membros do seu grupo. Isto lhe possibilita situar mais precisamente a obra do círculo de Bakhtin, demonstrando as influências do meio intelectual, em vez de simplesmente destacar divergências e celebrar uma suposta originalidade absoluta do círculo. Assim é que ele analisa a influência dos estudos jurídicos na teoria da linguagem do círculo, além dos estudos lingüísticos propriamente ditos. Muito esclarecedores sobre o contexto intelectual soviético são os ensaios “As origens da sociolingüística soviética” e “Linguística Sociologia em Leningrado: o Instituto de Estudos Comparados das Literaturas e Línguas do Ocidente e do Oriente (ILIaZV)” 1921-1933.
            Com seus trabalhos, Craig Brandist apresenta uma contribuição importante para uma visão mais crítica e histórica da obra de Bakhtin e seu Círculo, sem aquele viés idealizador e hagiográfico que caracteriza sua primeira recepção. Além disso, o autor tem sempre o cuidado de valorizar a contribuição de outros membros do círculo, como Volochinov e Medvedev, apresentados como pensadores e pesquisadores vigorosos, em vez de simples discípulos de Bakhtin. No caso de Volochinov, as análises de Brandist não apenas aponta diferenças, mas também contribuição para as reflexões presentes na obra assinada por Bakhtin.
Como afirma Brandist, não se trata de simplesmente desmascarar Bakhtin, mas de desmistificá-lo. A avaliação das influências não somente intelectuais como também políticas e institucionais, não desmerecem o trabalho do Círculo, mas permitem uma compreensão mais crítica das origens do seu pensamento. Tudo isso com a autoridade de quem não somente teve acesso aos arquivos, mas soube interpretá-los com perspicácia e, por isso, mesmo, voltou-se para alguns documentos até agora pouco ou nada examinados por outros estudiosos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Anatomia de um pensamento inclassificável

João Vianney Cavalcanti Nuto

            “Cabe denominar filosófica a nossa análise antes de tudo por considerações de índole negativa: não é uma análise lingüística, nem filológica, nem crítico-literária ou qualquer outra análise (investigação) especial. As considerações positivas são estas: nossa pesquisa transcorre em campos limítrofes, isto é, nas fronteiras de todas as referidas disciplinas, em seus cruzamentos e junção.” Assim Mikhail Bakhtin qualifica seu próprio pensamento, cuja abrangência transdisciplinar tem sido cada vez mais confirmada.
            É com ênfase nesse aspecto do pensamento de Mikhail Bakhtin que se apresenta o livro Círculo de Bakhtin: teoria inclassificável, organizado por Luciane de Paula e Grenissa Stafuzza, primeiro da série Bakhtin – inclassificável. Círculo de Bakhtin: teoria inclassificável reúne trabalhos de eminentes estudiosos da obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, na Bélgica e na Itália, que analisam aspectos teóricos intrínsecos do pensamento de Bakhtin e também a pertinência de suas reflexões para o estudo de objetos hoje estudados pela análise do discurso, da qual Bakhtin pode ser considerado precursor.
            Em “Uma leitura incassificável de uma escritura inclassificável: a abordagem bakhtiniana da literatura”, Susan Petrilli destaca a relação entre a concepção dialógica de sujeito em Bakhtin e a intricada questão da autoria dos seus trabalhos, observando a presença de uma espécie de autor-criador comum disseminado nas obras assinadas por Bakhtin e outros membros do seu círculo, independentemente do grau de participação de cada um na elaboração de cada obra e analisa a continuidade entre sua filosofia da linguagem e seus trabalhos de análise literárias.
            Adail Sobral, em “A estética de Bakhtin (literatura, poética e estética) (in)classifica o pensamento de Bakhtin como uma semiótica da cultura e aponta as relações entre o ato ético e a estética em sua obra. Bénédicte Vauthier discute a questão da autoria na obra do Círculo de Bakhtin não no sentido de desvendar o verdadeiro autor dos textos assinados por Medvedvev e Bakhtin, mas a própria concepção de autoria do Círculo, o processo de tornar-se autor, entendendo-se não no sentido do autor-pessoa, mas de autor-criador. Norma Discini, em “Bakhtin: contribuições para uma estilística discursiva, explora o caráter dialógico do conceito de estilo presente no Círculo de Bakhtin, em que o estlilo não é “o próprio homem”, como queria Buffon, mas o autor em sua relação como o enunciatário. João Wanderley Geraldi, em “Sobre a questão do sujeito”, analisa as diversas dimensões da concepção de sujeito em Bakhtin: a respondibilidade,  a singularidade e o inacabamento (inconconclusibilidade).
            Dois dos trabalhos de Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável valem-se das reflexões de Mikhail Bakhtin para a abordagem de objetos relacionados com o que hoje se denomina análise do discurso, mas em uma perspectiva verdadeiramente dialógica, sem o viés mecanicista de simplesmente “aplicar Bakhtin”. “O discurso como reflexo e refração e suas forças centrífugas e centrípetas” parte de reflexões de Bakhtin/Voloshinov, para, com o auxílio das observações de Dino Pretti sobre o discurso oral, contrastar estilística e ideologicamente o depoimento oral com os gêneros “boletim de ocorrência” e “termo circunstanciado”. “Gêneros do discurso: o caso dos artigos de opinião”, de Rena Marchezan baseia-se em Bakhtin para analisar aspectos estilísticos e ideológicos de artigos de opinião sobre a política brasileira.
            Merecem especial atenção os textos de Edward Lopes e Helenice B. T. Borges e de Augusto Ponzio. O primeiro, intitulado “O nascimento do Formalismo”, faz uma apresentação detalhada do movimento que hoje se denomina Formalismo Russo, contribuição inovadora, tendo em vista as poucas traduções de trabalhos de e sobre os formalistas publicadas no Brasil. Os autores mostram como a contribuição mais aprofundada do Formalismo Russo – e de resto, do contexto soviético – ajuda a compreender melhor o pensamento de Mikhail Bakhtin e sua polêmica esses interlocutores. Já o artigo “O pensamento dialógico de Bakhtin e do seu círculo como inclassificável”, de Augusto Ponzio, não foge à polêmica, apontando alguns equívocos nas interpretações do pensamento de Bakhtin por parte de estudiosos renomados como Michael Holquist, Katerina Clark, René Wellek e Wladimir Krysinski. Considerando o fato de que Bakhtin costuma ser mal ou parcialmente interpretado por meio da leitura de fontes secundárias e terciárias – efeito colateral de todo pensamento que se torna “clássico’, ainda mais se for inclassificável – o texto de Augusto Ponzio traz grande contribuição, pois, ao realizar sua polêmica com a devida exposição do pensamento dos autores discutidos, estimula uma leitura mais atenta, sem deixar de ser dialógica, do pensamento de Mikhail Bakhtin.
            Além da inegável contribuição para uma discussão esclarecedora do pensamento de Bakhtin, o livro Círculo de Bakhtin: teoria inclassificável apresenta uma característia rara nas coletâneas brasileiras do gênero: a inclusão dos textos estrangeiros traduzidos nas respectivas língua originais, no caso, italiano e francês. Considerando o grau de elaboração textual do ensaio, um dos traços que distingue esse gênero do puro artigo científico, essa forma de apresentação é muito bem vinda.

domingo, 20 de novembro de 2011

Membro do Grupo publica na revista Bakhtiniana

Acaba de ser publicado, no número 6 da Bakhtiniana: revista de estudos do discurso, o ensaio intitulado "Dostoiévski e Bakhtin: a filosofia da composição e a composição da filosofia", de João Vianney Cavalcanti Nuto.

O ensaio demonstra como a polifonia - principal caraterística do romance de Dostoiévski segundo Bakhtin - realiza-se como uma síntese artística de elementos da filosofia de Mikhail Bakhtin como a valorização da singularidade, do ato responsivo e responsável, do inacabamento (inconclusibilidade) e do dialogismo.

A revista Bakhtiniana é editada pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem  (LAEL), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e completa, em 2011, seu terceiro ano de publicação.

Em seu número 6, a Bakhtiniana apresenta um dossiê sobre Dostoiévski, em comemoração aos 190 anos de nasicmento de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-1881), aos 82 anos da publicação de Problemas da obra de Dostoévski (1929) e aos 48 anos da publicação de Problemas da poética de Dostoiévski, ambos de Mikhail Bakhtin. A edição inclui trabalhos que relacionam a obra de Dostoiévski com a obra de Bakhtin de uma perspectiva abrangente; outros abordam a relação entre a obra de Bakhtin e determinados trabalhos de Dosotoiévski; outros textos articulam conceitos relacionados com o estudo de Dostoiévski por Bakhtin para a análise de autores brasileiros. Diversos trabalhos apresentam certa interdisciplinaridade, transitando pela análise do discurso, pelos estudos literários, pela filosofia e pela psicologia, conforme sumário disponível em http://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/issue/current/showToc .

Encontram-se abertas as chamadas para os seguintes números da Bakhtiniana: número 7 (Linguagens e ensino: perspectiva dialógica) e número 8 (Bakhtin e o Círculo: diálogos com a filosofia e as ciências humanas em geral).